Review: Poltrona Nerd
Há hambúrgueres que erram a carne e salvam no molho, e há os que fazem o caminho inverso. O Sonic Ring, da Poltrona Nerd, pertence a uma terceira categoria, mais ingrata: a dos que acertam quase tudo e deixam um único ingrediente mal resolvido sabotar o conjunto. A carne sabe o que faz. O alho, infelizmente, também tem opinião.
O Acerto no Centro
A carne chega bem temperada, no ponto, com uma caramelização que não é só pose de foto. O cheddar cumpre o que promete sem inventar moda, o bacon é o ponto alto, crocante e bem caramelizado, do tipo que estala antes de ceder, e o barbecue escuro e brilhante entra com generosidade, marcando presença no pão e sobre a carne. No papel, por R$ 47,00, é um conjunto afinado. Tudo que dependia de técnica foi entregue com competência.
O Dente Que Ninguém Pediu
O tropeço mora na maionese de alho. O alho entrou nela com o germe ainda no lugar, aquele filete central que ninguém se deu ao trabalho de retirar, e o resultado é um ardor cru e teimoso que nem a doçura do barbecue conseguiu domar.
Em algumas mordidas, o alho falava mais alto que a carne, uma inversão de hierarquia que nenhum hambúrguer merece. Quem ama alho vai chamar de personalidade. Quem tem date marcado com o Drácula pode comparecer sem medo. Para o restante da humanidade, é um deslize evitável: tirar o germe é o gesto mínimo que separa tempero de acidente.
Trinta e Seis Reais Pela Metade
O drink de bananinha veio leve, perfumado, com uma picância discreta de gengibre e acidez na medida. Beberia de novo, não fosse um detalhe: custou R$ 36,00 e chegou descaracterizado. A espuma até coroava a caneca, mas era a espuma errada. A espuma de pitaya, que daria cor, perfume e assinatura, mal apareceu, pois a casa estava sem, e o que restou foi uma camada pálida com uns fantasmas de rosa nas bordas, a sombra de um ingrediente que deveria ser protagonista.

Pagar trinta e seis reais por um drink e receber a versão sem a parte que o tornava ele mesmo é o tipo de conta que não fecha. A ironia é que a soda italiana, de xarope e água com gás, custou menos da metade, R$ 17,00, e chegou inteira: leve, equilibrada, em tamanho honesto. O barato veio completo, o caro pela metade.
Sobra ainda um detalhe quase poético: o lanche se chama Sonic Ring e terceiriza justamente os anéis de cebola, comprados e não feitos ali. Ao menos foram fritos com decência, secos e crocantes. Mas há algo de revelador num prato que empresta o nome ao anel e não o faz com as próprias mãos.

Conclusão
A Poltrona Nerd entrega, no essencial, um lanche acima da média: carne, queijo, bacon e barbecue afinados. E desperdiça parte disso num dente de alho que ninguém limpou e num drink de R$ 36,00 que chegou sem a própria assinatura. É uma pena, porque os dois consertos são baratos e o talento, óbvio. O cenário é nerd. Os erros são clássicos.
Nota: 6.9 / 10
O Sonic Ring acerta o difícil: carne bem temperada, cheddar honesto, bacon crocante de dar inveja e um barbecue generoso, tudo por R$ 47,00. Escorrega no fácil, na maionese de alho com germe que dominou mordidas inteiras. O drink de bananinha, a R$ 36,00, veio bom mas com a espuma trocada, pálida no lugar da pitaya que prometia cor e perfume, enquanto a soda italiana de R$ 17,00 chegou inteira e equilibrada. O barato veio completo, o caro pela metade. Tira o germe do alho e entrega a pitaya, e some meia nota de problema.



