Review: Açougue 154

O Açougue 154 é, uma casa que sabe exatamente onde mora seu mérito e onde mora seu descaso, e que coloca os dois no mesmo prato sem nenhum constrangimento. A carne foi tratada como protagonista. Tudo o que a acompanha foi tratado como obrigação contratual: algo para comer e esquecer.


O Acerto que se Reconhece

Comecemos pelo que a casa fez direito, porque foi feito direito de verdade. O Steak Angus chegou rosado, macio, suculento, com sal no ponto que tantos espetos desta cidade fingem desconhecer. A reação de Maillard na superfície estava presente sem virar crosta carbonizada, e a primeira mordida entregou a promessa que o nome do estabelecimento faz questão de estampar no prato: aqui se entende de corte. Para quem, como nós, não faz da carne vermelha o centro da própria dieta, foi preciso competência real para sustentar o interesse até o fim. A carne sustentou.

A Banana que Ninguém Pediu e Todos Deviam

A banana da terra assada foi a segunda vitória, e talvez a mais honesta. Caramelizada no ponto exato, doce sem ser empalagosa, firme o bastante para não desfazer ao toque. É o tipo de acompanhamento que denuncia, por contraste, o desleixo do resto: alguém naquela cozinha sabe cuidar de um ingrediente do começo ao fim. A pergunta que fica é por que esse alguém não foi destacado para os outros pratos.

O Tropeiro sem Tropa

Porque o feijão tropeiro do Açougue 154 é tropeiro apenas no nome. Falta-lhe quase tudo o que define o prato: nada de linguiça, nada da camada de temperos que dá identidade à receita, nenhuma daquelas estruturas clássicas que justificam o título. O que sobra é ovo, feijão e um fragmento perdido de bacon, montados sem sal e sem propósito. Não é um feijão tropeiro de baixo custo; é a ideia de um feijão tropeiro descrita por quem ouviu falar dele. O arroz parrilleiro segue na mesma toada: presente, morno, esquecível. Onde se esperava algum vislumbre, recebe-se neutralidade. Acompanham a carne sem nenhuma intenção de serem lembrados.

A Falha que a Faca Revela

Há ainda uma ressalva técnica que só apareceu adiante, quando o corte foi aberto até o fim. A cocção não era uniforme. Ao lado de pedaços no ponto rosado e correto, surgiram trechos visivelmente malpassados, de um rosa cru que destoava do resto da peça. Não é defeito que condene a carne, que no geral acertou, mas é o tipo de inconsistência que separa a casa boa da casa confiável. Um corte bem executado não pede que o cliente jogue na loteria a cada garfada.

Conclusão

O Açougue 154 é uma casa de uma virtude só, e tem a honestidade involuntária de não esconder isso. Paga-se por uma boa carne e recebe-se, de fato, uma boa carne, acompanhada de uma banana da terra que merecia companhia melhor. O problema é que ninguém come só o protagonista. Quando metade do prato é tratada como enchimento, o que se vende não é uma refeição completa, é um bom corte cercado de frieza. E frieza, por mais bem grelhada que venha a carne ao lado, nunca teve sabor.


Nota: 6.4 / 10

O Açougue 154 acerta onde promete e abandona todo o resto. O Steak Angus é o ponto alto, rosado, macio e bem salgado, e a banana da terra caramelizada prova que a cozinha sabe caprichar quando quer. O problema é o quase tudo que sobra: um feijão tropeiro sem linguiça, sem tempero e sem identidade, e um arroz parrilleiro apenas figurativo. Onde se esperava algum vislumbre, serve-se neutralidade, algo para comer e esquecer. Cobra-se por uma experiência e entrega-se metade dela. A carne é boa. A pergunta é por que o resto da mesa não foi convidado para o mesmo padrão.