Review: Bakehouse 44
Há casas que decepcionam por incompetência e há as que decepcionam por desinteresse. A Bakehouse 44 construiu reputação sobre manteiga, fermentação e a estética do capricho artesanal, e talvez por isso o almoço cause uma frustração tão específica: tudo chega tecnicamente apresentável e sensorialmente ausente. É como surfar num mar sem ondas com promessa de tsunami. O cenário anuncia o evento. A água não se move.
Folhas num Meio Ácido
A refeição abre com a salada de entrada que acompanha todos os pratos da casa, com duas opções de molho: balsâmico ou mostarda e mel. Escolhi o balsâmico, e aparentemente escolhi errado, embora suspeite que não exista escolha certa aqui. O vinagre não foi emulsionado, equilibrado ou sequer contornado por qualquer outro elemento. Foi despejado. As folhas existem dentro daquele meio ácido como espécimes em conserva, sem sal, sem condimento, sem intenção. O tomate, passado do ponto, perdeu a firmeza e vira purê na boca antes que o garfo termine o trabalho. A cenoura exibe sinais claros de desidratação, aquela textura de legume que conheceu dias melhores e geladeiras mais recentes. A salada não foi temperada. Foi abandonada.

Assado Lentamente, Temperado Nunca
A coxa e sobrecoxa de frango assada custa R$ 50,00 e vem descrita no cardápio com o cuidado de quem escolheu cada palavra: assada lentamente, picles de cebola roxa, purê de batata, banana assada, farofa crocante. O problema é que a lentidão prometida não deixou rastro. O frango chega bem cozido, ponto correto, e mudo. Sem potência, sem sal, sem vontade. Assar devagar é
uma técnica que existe para aprofundar sabor, e aqui aprofundou apenas o tempo de espera.

Os acompanhamentos seguem a doutrina do quase. O purê de batata é liso, tecnicamente apresentável, e tão imemorável quanto. A farofa, que o cardápio adjetiva de crocante, disputa com ele o posto de item mais esquecível do prato e talvez vença, o que é uma forma de mérito. A banana assada chegou passada, madura demais, mole ao garfo; com mais firmeza teria sido um ponto a favor, e do jeito que veio somou-se ao coro. O picles de cebola roxa, único aceno de acidez planejada da composição, chega tímido, contido na própria existência. Tudo no prato está certo. Nada no prato está bom. Por cinquenta reais, o certo deixou de ser suficiente faz tempo.
Vinte Reais de Laranja
O suco de morango com laranja resolve qualquer dúvida sobre a hierarquia interna do copo: é suco de laranja com presença protocolar de morango, quase certamente de polpa. A fruta que dá nome ao pedido aparece como rumor. Por R$ 20,00, o que se compra não é o sabor, é a palavra "morango" impressa no cardápio. Somado ao prato, o almoço fecha em setenta reais antes do café. É preço de memória boa. A memória não veio.

A Redenção em Cinquenta Mililitros
Encerro com o espresso, e o espresso encerra bem: equilibrado, marcante, sem o amargor agressivo que tanta casa confunde com personalidade. Foi o único momento do almoço em que algo chegou à mesa exatamente como deveria. É revelador que a melhor execução do dia tenha vindo de uma máquina, e não da cozinha.
Conclusão
A Bakehouse 44 vende um luxo de superfície: o ambiente certo, a louça certa, o cardápio com os adjetivos certos. Mas embaixo do verniz, o almoço é uma sequência de ausências, de sal, de frescor, de sabor onde a lentidão do forno prometia entregá-lo. Saí alimentado e sem uma única lembrança que justificasse a volta. O capricho que fez a fama da casa ficou no balcão dos pães. À mesa, sobrou a promessa.
Nota: 4.5 / 10
Um almoço de R$ 70,00 que erra por omissão: salada abandonada num balsâmico despejado, tomate que vira purê na boca, frango assado lentamente rumo a lugar nenhum, purê apresentável e imemorável, banana passada, farofa que o cardápio chama de crocante e a memória não chama de nada. O suco de R$ 20,00 é laranja com boato de morango, e o espresso, equilibrado e preciso, é o único item que entende o próprio nome. Luxo superficial servido em louça bonita. O mar não teve onda, e o tsunami ficou no cardápio.



