Review: Larica's Time
O Larica's Time funciona na frente de uma casa no Boa Esperança, entre a garagem e o quintal onde a marca nasceu, e se apresenta duas vezes antes do primeiro pedido. No slogan, reivindica o melhor frango frito de Cuiabá: título verdadeiro pela aritmética de uma liga em que praticamente só existem a casa e o famigerado KFC, onde terminar em primeiro é questão de comparecer. No nome, gíria batizada com apóstrofo de importação, promete servir a larica, o freguês mais fácil da gastronomia, o estado em que o corpo aceita qualquer fritura como banquete. A primeira promessa se cumpre por falta de adversário. A segunda, a casa consegue descumprir. E decepcionar a larica exige um tipo de empenho que o tempero nunca recebeu.
A Garagem e o Cronômetro
Que ninguém torça o nariz para a garagem. Este projeto já encontrou mais competência em isopor de marmita do que em louça de importadora, e a origem de quintal, aqui, nem é segredo: é a biografia que a própria casa conta com orgulho. Mesa dobrável de madeira, toalha xadrez, luz pendente, mural colorido tomando a parede inteira. O cenário promete uma informalidade acolhedora. O atendimento trata de desmenti-la. O cardápio chega junto com a expectativa de uma resposta imediata, e escolhi meu pedido com a sensação de prestar prova oral, cronometrado por alguém com compromissos claramente mais urgentes que a minha decisão. Pressa não é crime. Mas hospitalidade é a arte de fazer o cliente esquecer que existe relógio, e ali o relógio jantou comigo.
Sinais Vitais
O cardápio orbita o frango, entre sanduíches e cestos, e o cesto com fritas foi o escolhido. Comecemos pelo que a casa acerta, porque existe acerto e ele merece registro: a fritura do frango é competente. A casquinha estala, o interior preserva a umidade certa, o ponto revela uma cozinha que entende de óleo, temperatura e tempo. Tecnicamente, é um empanado bem executado. Sensorialmente, é uma folha em branco. A crosta não carrega tempero algum, em solidariedade à carne que protege, igualmente inocente de qualquer contato com sal.
O quadro é quase clínico: um frango que sofre de pressão baixa e falta de ânimo, sem vontade aparente de se tornar alguma coisa. E a comparação inevitável dói. O famigerado KFC, linha de montagem multinacional sem pretensão de afeto, tempera mais e melhor que o autoproclamado melhor frango frito de Cuiabá. Quando a indústria vence o artesanal justamente no quesito em que o artesanal deveria ser imbatível, o problema não é a indústria estar boa demais.
O Resto do Time
Se o frango ao menos apresenta defesa, o resto do elenco se entrega sem reação. As fritas onduladas chegaram murchas e louras, retiradas do óleo antes de qualquer definição de caráter: dobram sem estalar, e o contraste é cruel, porque dividem a cozinha com uma fritadeira que trata o frango com um respeito que a batata nunca conheceu. Os molhos confirmam o padrão. O ketchup de goiabada entrega o truque na primeira colherada: ketchup industrial com micropedaços de goiabada, a maquiagem mínima para sustentar um nome autoral no cardápio.
Já o ranch resolve o mistério do paradeiro do tempero da casa: foi todo convertido em alho e despejado num único pote, numa concentração que atropela qualquer erva que tenha sido convidada à receita. Ranch de batismo, pasta de alho de vocação. Eis o resumo involuntário da cozinha: o único item temperado da mesa é um molho, e temperado com a mão pesada que faltou em todo o resto. A conta fecha o capítulo: R$ 47 pelo cesto, mais nove reais por 310 mililitros de Coca-Cola, quase trinta reais na régua do litro. R$ 56 para aprender que crocância sem sal é textura, não comida.
A Parede
Resta o mural, e ele exige parágrafo próprio. Na parede principal, em traço caprichado de grafite, duas figuras negras em iconografia de hip-hop: tranças, correntes, bucket hat estampado com o nome da casa, frango frito na mão e na boca, sob o aviso de que hoje é dia de frango. Registre-se sem eufemismo: a associação entre pessoas negras e frango frito é uma das caricaturas raciais mais antigas e mais documentadas do imaginário visual americano, nascida nos palcos de blackface do século XIX e repetida por mais de cem anos com uma única função, a de ridicularizar. Não é referência de cultura pop. É escárnio com pedigree. Estampá-la em tamanho de parede numa casa que vende exatamente frango frito não é homenagem à cultura de rua: é o estereótipo promovido a identidade visual. E mural nenhum aparece por acidente. Houve esboço, orçamento, aprovação e dias de tinta, e em nenhuma dessas etapas alguém parou a pintura. Ou ninguém enxergou o problema, o que envergonha, ou alguém enxergou e achou que combinava com o cardápio, o que condena. As duas hipóteses seguem lá, secas na parede, respondendo pela casa a cada cliente que senta.
Conclusão
O Larica's Time tem o que muita casa consolidada não tem: domínio real da fritura de frango. Casca que estala, carne que não resseca, ponto de quem já errou o suficiente para acertar. Mas a competência termina na estação do frango: a batata sai do óleo antes da hora, os molhos improvisam, o sal não foi contratado. O melhor frango frito de Cuiabá é um título verdadeiro do mesmo jeito que um campeonato de dois participantes é um campeonato: vencer assim não é glória, é logística. As plataformas estampam um 4,9 que a casa faz questão de divulgar. A nota abaixo foi paga do próprio bolso. Enquanto a cozinha não temperar o que já sabe fritar, o slogan segue verdadeiro. Só não segue sendo elogio.
Nota: 4.4 / 10
Fritura de frango tecnicamente correta a serviço de uma cozinha que esqueceu o sal, batata retirada do óleo antes da hora, molhos que improvisam e um mural que envergonha mais que a conta: eis o autoproclamado melhor frango frito de Cuiabá, campeão de uma liga quase vazia, a R$ 56 a experiência. A crocância é real, a umidade é certa, o tempero simplesmente não compareceu. O nome promete saciar a larica, o freguês mais generoso que uma cozinha pode receber. A casa consegue decepcionar até ele.



