Review: Burger 65
Toda casa tem uma tese. A do Burger 65 é a de que cremosidade equivale a sabor, e o cardápio inteiro foi redigido para defendê-la. Cream cheese, catupiry e cheddar cremoso se revezam de sanduíche em sanduíche como a mesma ideia trocando de crachá. A página de opções, extensa no papel, se resume na prática a escolher o nome: a textura já veio decidida de fábrica.
A Monocultura do Cremoso
Basta ler o cardápio na sequência. O Supremo leva cream cheese. O Costela, cream cheese. O Rustico, cream cheese. O Sensação, cream cheese. Até o sanduíche que batiza a casa leva cream cheese. Quando o pote acaba, entra o catupiry: Pantaneiro, Catupa Bacon e o próprio Catupiry e Alho. E, para quem sobreviver a tudo isso, a casa ainda reserva um Explosão de Cheddar e um Cheddar Melt, ambos de cheddar cremoso. Não há crime em gostar de queijo processado. Há algo de revelador, porém, em construir uma operação inteira sobre ele. Ingrediente que aparece em quase toda receita deixa de ser escolha e vira muleta. E muleta existe para sustentar o que não para em pé sozinho.
A Memória do Alho
O escolhido da vez foi o Catupiry e Alho, pedido no combo de R$ 50, com refrigerante em lata e acompanhamento (avulso, o lanche sai a R$ 35). A ficha promete pão brioche, burger de 160 gramas, mussarela, alface, tomate, cebola roxa, catupiry e alho frito. Aos olhos, tudo comparece. A mussarela escorre pelas bordas com fotogenia de comercial, o alho frito pontua o queijo em farelos dourados, a salada chega viva e a montagem se sustenta. A câmera aprova o sanduíche por unanimidade. O paladar recebe outro.
Porque o alho, aqui, existe em regime de memória. Está visível, documentável, arqueologicamente presente sobre o queijo. Senti-lo é outra história: a camada densa de catupiry se deposita sobre o conjunto e apaga qualquer vestígio aromático que ele tenha tentado deixar. Um lanche com dois ingredientes no nome deveria entregar, no mínimo, os dois. Este entrega um, com sobras.
A maionese verde que acompanha fecha o quadro. Verde no nome e na cor, mostarda no gosto: as ervas que justificariam o batismo não compareceram, ou compareceram tímidas demais para constar em ata. É o segundo item da mesa que promete uma coisa e entrega outra. A essa altura, já não parece acidente. Parece linha editorial.
O Figurante de 160 Gramas
Resta a carne, que chegou devendo antes da primeira mordida. O pedido foi explícito: ao ponto. O que veio à mesa foi proteína em cocção completa, miolo uniforme de ponta a ponta, nenhum rosado de cortesia. Ignorar o ponto solicitado não é detalhe técnico: é a cozinha avisando que a preferência do cliente tem valor de sugestão.
Some-se a cocção total ao tempero ausente e o resultado é um burger de 160 gramas que atravessa a refeição sem dizer uma única fala. Sustenta as camadas, dá volume à mordida e não deixa lembrança de si: nem sal, nem suco, nem presença. A suspeita inicial recaía sobre a escolha da carne pela casa; a chapa fez questão de assumir sua parte da culpa. Numa hamburgueria, o hambúrguer conseguiu ser o elemento mais discreto do próprio sanduíche. É a inversão completa da razão social.
R$ 35 não é valor criminoso para um artesanal em Cuiabá. R$ 35 por um sanduíche em que a proteína cumpre função meramente ilustrativa é outra conversa: paga-se pelo protagonista e recebe-se o figurante.
O Paradeiro do Sal
Justiça seja feita: a batata do combo chegou sequinha, crocante e bem temperada. É o item mais competente da bandeja e resolve, de quebra, o mistério do sanduíche insosso: o sal não sumiu da casa, apenas desceu inteiro para o acompanhamento. O elogio, porém, tem teto. Batata não sustenta refeição, muito menos veredito. Celebrar a fritura num combo de R$ 50 é elogiar a moldura de um quadro em branco.
Conclusão
O Burger 65 resolveu com empenho o problema errado. Investiu tudo em deixar os lanches cremosos quando o desafio, desde o início, era deixá-los saborosos. O resultado é textura única e sabor nenhum: o catupiry engole o alho, a maionese esquece as ervas, a chapa ignora o ponto e a carne assiste a tudo de dentro do pão. Voltei mais de uma vez antes de fechar este texto, na esperança de flagrar apenas um dia ruim. Não flagrei um dia ruim: flagrei um método. Come-se sem sofrimento, esquece-se sem esforço. No fim, a experiência é fiel ao creme que a define: preenche, escorre e não deixa marca.
Nota: 4.4 / 10
Cardápio refém do cream cheese e do catupiry, carne servida além do ponto pedido e escalada como figurante no próprio sanduíche, alho anunciado no nome e apagado no prato, maionese verde com alma de mostarda. A batata, sequinha e bem temperada, é o único item da bandeja que entendeu o próprio ofício. O Catupiry e Alho não agride nem acontece: cumpre todos os protocolos visuais e nenhum dos gustativos. Entre tantas camadas de creme, a única coisa que não derrete é a certeza de que faltou cozinha.



