O Suspeito de Sempre

Uma análise de dados do clima de Cuiabá em outubro de 2026

No domingo, 25 de outubro, o termômetro do aeroporto Marechal Rondon marcou 39 °C à uma da tarde. Uma hora depois, marcava 32 °C. Na segunda-feira, a máxima não passou de 28 °C. Na terça, voltou a 36 °C. Na quarta, 28 °C de novo. Na sexta, 35 °C. Quem saiu de casa nessas duas semanas sem conferir a previsão errou de roupa pelo menos uma vez.

Para quem perguntou o porquê, a resposta veio pronta, no grupo da família e na fila da padaria: é o El Niño. O suspeito tem currículo. O Pacífico equatorial vive o aquecimento mais intenso da série semanal da NOAA, e o fenômeno de 2026 já é tratado como um dos maiores da história. Esta revista foi aos números para saber se uma coisa explica a outra. Com dados de estação meteorológica, de reanálise climática e um pouco de regressão linear, a pergunta é direta: o El Niño explica a bagunça do tempo em Cuiabá?

Os dados apontam para outro lado.


De Onde Vêm os Números

Para a análise, usamos quatro fontes, todas públicas.

Do aeroporto Marechal Rondon (SBCY), em Várzea Grande:

  • os boletins meteorológicos (METAR) emitidos de hora em hora, com temperatura, umidade, vento, pressão e registro de trovoada, de 2000 a 2026, reunidos pelo Iowa Environmental Mesonet.

Da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera:

  • o RONI, índice oficial do El Niño desde fevereiro de 2026, e o ONI, o índice tradicional, trimestre a trimestre desde 1950;

  • as anomalias semanais da temperatura do mar nas regiões do Pacífico que definem o fenômeno, desde 1981;

  • a chuva diária medida em pluviômetros (CPC Unified Gauge), desde 1979, numa área de cerca de 110 quilômetros de lado em torno da capital;

  • a chuva mensal de toda a América do Sul (GPCP), desde 1979.

Do Centro Europeu de Previsão (ECMWF/Copernicus):

  • a reanálise ERA5, que reconstrói o tempo dia a dia desde 1940, no ponto da grade mais próximo de Cuiabá.

O aeroporto tem registro horário contínuo desde 2000. A reanálise cobre o que a estação não alcança: 86 outubros, sem buracos.

Como Medir uma Bagunça

Bagunça não é unidade de medida, então foi preciso criar uma. A régua escolhida é a variação da temperatura máxima de um dia para o outro. Chamamos de salto toda variação de 5 °C ou mais, para cima ou para baixo: é o tamanho de mudança que faz alguém trocar a camiseta pela blusa. A oscilação média é a média de todas essas variações ao longo do mês, com ou sem salto.

Para saber se 2026 foi diferente, cada número deste outubro foi comparado com os mesmos dias dos 26 outubros anteriores, de 2000 a 2025, no mesmo termômetro. Para saber se o El Niño tem a ver com isso, usamos a mesma ferramenta da nossa análise eleitoral: a regressão linear. Ela mede quanto uma coisa varia quando outra varia. O R², que vai de 0% a 100%, diz quanto da diferença entre um outubro e outro o El Niño consegue explicar.

Onze Saltos

Outubro de 2026 teve 11 saltos em 30 dias. É o maior número desde 2000 no aeroporto. O recorde anterior era de 10, em 2017, e a média dos 26 outubros anteriores é de 5. A oscilação média também é a maior da série: 3,8 °C de um dia para o outro, contra 2,6 °C na média. Seis desses saltos foram quedas, o que iguala o recorde de 2005.

As duas últimas semanas resumem o mês. De 19 a 25 de outubro, foram sete dias seguidos com máxima de 35 °C ou mais, até 39 °C no sábado e no domingo. No dia 21, no fim da tarde, uma tempestade derrubou a temperatura de 37 °C para 28 °C em menos de uma hora, com rajada de 65 km/h. No dia 25, a frente fria chegou no começo da tarde: 39 °C às 13h, 32 °C às 14h, com o vento virando para o sul e a pressão subindo 9 hectopascais até a manhã seguinte. A segunda-feira amanheceu com 21 °C, garoa e névoa, e a máxima ficou em 28 °C.

A queda de 11 °C de um dia para o outro é a maior registrada entre 17 e 30 de outubro desde 2000; a maior anterior era de 10,3 °C, em 2008. Depois vieram 36 °C na terça, oito horas de trovoada entre a noite de terça e a madrugada de quarta, com 20 milímetros de chuva, 28 °C na quarta, 29 °C na quinta e 35 °C na sexta.

Pela média, porém, a quinzena foi normal. A média das máximas, 34,4 °C, ficou colada na dos 26 anos anteriores, 34,6 °C. E o mês inteiro foi até um pouco mais ameno que o habitual: a média das máximas de outubro, 33,9 °C, ficou um grau abaixo da média de 2000 a 2025. A previsão do INMET para outubro apostava em temperaturas acima da média no Centro-Oeste. No aeroporto, não se confirmou.

A chuva ficou abaixo do normal, sem chegar a ser rara. De 1º a 29 de outubro, a região recebeu 79 milímetros, 80% da média de 2000 a 2025 para as mesmas datas. Na quinzena, choveu 23 milímetros, concentrados em dois dias: o menor número de dias com chuva nesse período desde 2000.

Não foi um outubro mais quente. Foi um outubro mais nervoso.

A Bagunça Tem Calendário

Antes de procurar culpados, vale olhar o calendário. Em Cuiabá, a temperatura não oscila do mesmo jeito o ano inteiro. Entre dezembro e abril, no auge das chuvas, os saltos são raros: de um a dois por mês. De julho a setembro, são cerca de seis por mês, e outubro vem logo atrás, com 5,5. É a época em que o ar quente e seco do interior encontra as frentes frias que sobem do sul e, a partir de setembro, as primeiras tempestades da estação chuvosa. Um levantamento da UFMT sobre as frentes frias fortes que atingiram Cuiabá entre 1996 e 2015 encontrou, no sul de Mato Grosso, mais incursões justamente na estação seca, de abril a setembro.

Bagunça em outubro, portanto, é tradição cuiabana. O que 2026 fez foi dobrar a dose. E dá para ver de onde veio cada queda. Das seis quedas bruscas do mês, quatro tiveram, no boletim do aeroporto, a assinatura de uma frente fria, com o vento virando para o sul e a pressão subindo: nos dias 2, 6, 10 e 26. As outras duas vieram de tempestades, nos dias 15 e 28. Uma a cada cinco dias, em média.

O Pacífico em Febre

O suspeito, é preciso reconhecer, nunca esteve tão forte. Na semana de 21 de outubro, a temperatura do mar na região Niño 3.4, no centro do Pacífico equatorial, estava 3,4 °C acima da média de 1991 a 2020. É o maior valor da série semanal da NOAA, iniciada em 1981. O recorde anterior era de 3,0 °C, em novembro de 2015, e desde meados de setembro todas as semanas de 2026 igualaram ou superaram essa marca. Mais perto da costa do Peru, na região Niño 1+2, a anomalia chegou a 5,3 °C no fim de setembro.

Desde fevereiro, a NOAA mede o El Niño por um índice novo, o RONI, que desconta o aquecimento geral dos oceanos tropicais para separar o que é fenômeno do que é tendência. Por ele, o trimestre de julho a setembro de 2026 marcou +1,69, atrás apenas do mesmo trimestre de 1997 (+1,84). Em seu boletim de 8 de outubro, a agência estimou em 83% a chance de o trimestre de outubro a dezembro chegar a +2,5 ou mais, o que faria deste o El Niño mais forte desde 1950.

Ninguém precisa exagerar o El Niño de 2026. Ele já entrou para a história. A pergunta é se ele passou por Cuiabá.

O Teste do Pacífico

Para responder, cruzamos o RONI de setembro a novembro de cada ano com o outubro de Cuiabá correspondente, nos 76 outubros de 1950 a 2025 da reanálise ERA5. O resultado é quase um zero redondo. O El Niño explica 0,0% da diferença de temperatura máxima média entre um outubro e outro, e 0,0% da diferença de chuva. Com o índice antigo, o ONI, os números sobem para 1,2% e 1,0%, sem significância estatística. No termômetro do aeroporto, de 2000 a 2025, o El Niño explica 0,4% da temperatura. Nos pluviômetros, de 1979 a 2025, 0,0% da chuva.

Separando os anos em grupos, a conclusão não muda. Os cinco outubros de El Niño forte da série (1965, 1972, 1982, 1997 e 2015) tiveram máxima média de 33,2 °C. Os de La Niña, 33,6 °C. Os neutros, 33,0 °C.

A oscilação é o único lugar onde o El Niño aparece, e aparece do lado contrário. Nos outubros de 1950 a 2025, ele explica 8,6% da diferença de oscilação entre os anos; nos de 1979 a 2025, 15,7%. Mas a relação é negativa: quanto mais forte o El Niño, mais calmo tende a ser o outubro em Cuiabá. O efeito se mantém quando se desconta a tendência de longo prazo.

Há uma explicação física para isso. Em anos de El Niño, segundo o INMET, a corrente de jato subtropical, um rio de vento a cerca de 10 quilômetros de altura, se intensifica e segura as frentes frias sobre a Região Sul. Com menos frentes subindo para o Centro-Oeste, o tempo por aqui tende a ficar mais estável. É o oposto de uma bagunça.

No termômetro do aeroporto, a relação é mais fraca (R² de 3,1%), mas vai para o mesmo lado. E os exemplos recentes mostram que o Pacífico não decide sozinho. O outubro de 2015, de El Niño forte, teve 9 saltos. O de 2023, também de El Niño, teve 2 e foi o mais quente da série, com máxima média de 37,7 °C: um forno contínuo. Entre os de La Niña, 2017 teve 10 saltos, e 2024, nenhum.

A Dobradiça

O mapa ajuda a entender por quê. Ele mostra, ponto a ponto da América do Sul, quanto a chuva de setembro a novembro acompanha a força do El Niño. No Sul do Brasil, a relação é forte e positiva: em Porto Alegre, a correlação é de +0,58, e El Niño significa chuva a mais. Na Amazônia, é forte e negativa: em Manaus, −0,44, e El Niño significa seca. Cuiabá fica no meio, com +0,17, uma correlação que não se distingue do acaso. A linha onde o efeito do El Niño troca de sinal passa entre Cuiabá e Sinop.

É o que o CPTEC, do Inpe, registra na sua lista de efeitos do fenômeno no país: no Centro-Oeste, não há evidências de efeitos pronunciados nas chuvas. O prognóstico oficial para esta primavera desenha a mesma dobradiça, com chuva abaixo da média no centro-norte de Mato Grosso e acima dela no sul do estado e em Mato Grosso do Sul. Cuiabá está na dobra.

O suspeito, aliás, passou a primavera ocupado nas duas pontas do mapa. Segundo a Climatempo, a falta de chuva no Norte e no Nordeste já pode ser contada entre os impactos do fenômeno nesta estação, e setembro trouxe chuvas intensas ao Sul e ao Sudeste, com recorde de 332,8 milímetros em Iguape, no litoral paulista.

Os Outros Suspeitos

Se o El Niño não explica outubro, o que explica? Dos fatores testados, o que mais pesa é o mais simples: o passar dos anos. Na reanálise, a máxima média de outubro em Cuiabá sobe 0,26 °C por década desde 1950, cerca de 2 °C no período, e perto de 0,5 °C por década desde 1979. Só essa tendência explica um quarto da diferença de calor entre os outubros de 1979 a 2025, contra 0,1% do El Niño. Na chuva, os pluviômetros mostram outubros mais secos: 12 milímetros a menos por década desde 1979, uma tendência que explica 19% da diferença entre os anos.

Nenhuma das duas tendências, porém, explica a bagunça. A oscilação de outubro não tem tendência clara desde 1979 (R² de 2,8%). O calor de fundo está subindo, a chuva está rareando, e o vaivém de 2026 é outra coisa. O que fez as frentes frias chegarem a Cuiabá de cinco em cinco dias, num ano em que o El Niño deveria segurá-las no Sul, os dados desta matéria não respondem. Respondem apenas que não foi o suspeito de sempre.

O Que o Termômetro Não Conta

Os números acima têm limites, e eles importam.

O aeroporto fica em Várzea Grande, e um termômetro só não representa uma região inteira. Os boletins METAR informam a temperatura em graus inteiros, de hora em hora: a máxima real de cada dia pode ter sido alguns décimos maior que a registrada. Um boletim com erro evidente, que marcou 36 °C sob céu encoberto entre leituras de 24 °C e 26 °C no dia 26, foi descartado, como todos os picos isolados desse tipo na série.

A reanálise ERA5 combina observações com um modelo de previsão, numa grade de cerca de 25 quilômetros. Ela acompanha bem o aeroporto (correlação de 0,91 nas máximas diárias de outubro), mas marca em média 0,6 °C a menos, suaviza os extremos e é menos confiável nas primeiras décadas, quando havia poucas estações na região. A rede de pluviômetros do CPC também mudou de tamanho ao longo do tempo, o que pode inflar ou esconder parte das tendências.

O mais importante: a ausência de relação nos 76 outubros anteriores não prova que o El Niño não teve papel nenhum em 2026. Este El Niño não tem precedente na série semanal, e o passado pode simplesmente não conter nada parecido para comparar. Separar com segurança o peso de cada fator num episódio específico exige experimentos com modelos climáticos, fora do alcance desta análise. O que os dados permitem dizer é que, se o El Niño teve participação, ela não segue o padrão de nenhum outro El Niño medido em Cuiabá.

E duas semanas são pouco tempo. O El Niño age na escala das estações, mexendo nas probabilidades, e não marca hora para cada tempestade.

Nenhuma dessas ressalvas muda o desenho geral. O Pacífico está em febre, e a febre é histórica. A bagunça de Cuiabá, porém, tem outro endereço: a estação das frentes, que este ano trabalhou dobrado. Da bagunça deste outubro, o suspeito de sempre tem álibi.


Notas Técnicas

  • Estação: boletins METAR do aeroporto Marechal Rondon (SBCY), via Iowa Environmental Mesonet, em hora local (UTC−4). Só entram dias com pelo menos 20 horas observadas. A máxima é a maior leitura do dia. Leituras que se afastam mais de 5 °C das duas vizinhas (até 2 horas antes e depois), enquanto as vizinhas concordam entre si, foram descartadas como pico isolado: 92 desde 2000, 7 delas em 2026.

  • Salto e oscilação: salto é a variação de 5 °C ou mais na máxima entre dois dias consecutivos; oscilação é a média da variação absoluta. Outubro é contado de 1 a 30, porque o dia 31 de 2026 ainda não havia terminado.

  • Frente fria ou tempestade: uma queda foi classificada como frente fria quando, entre o meio-dia da véspera e o fim do dia, pelo menos 40% das leituras de vento vieram do quadrante sul (de 135° a 225°) e a pressão subiu 5 hPa ou mais. Critério simplificado, usado só para descrever as quedas de 2026.

  • Chuva: CPC Unified Gauge (NOAA), média das quatro células de 0,5 grau em torno de Cuiabá. Os dados vão até 29/10/2026, e todas as comparações usam o mesmo recorte de datas em todos os anos.

  • Reanálise: ERA5 diária, via Open-Meteo, no ponto −15,50; −56,00 (grade de 0,25 grau). Disponível até 24/10/2026, por isso usada só para os outubros de 1940 a 2025.

  • Índices do Pacífico: RONI e ONI do trimestre setembro-outubro-novembro (NOAA CPC). Para 2026, o último trimestre disponível é julho-agosto-setembro. Anomalias semanais: OISST v2.1, base 1991-2020.

  • Regressão: mínimos quadrados simples, com significância pelo teste t da correlação. Com a tendência incluída como segunda variável (erros-padrão robustos), o efeito do RONI sobre a oscilação continua significativo (p = 0,03 em 1950-2025; p = 0,02 em 1979-2025).

  • Mapa: correlação de Pearson entre o RONI de setembro a novembro e a chuva média do mesmo trimestre no GPCP v2.3 (grade de 2,5 graus), de 1979 a 2025. Com 47 anos, correlações acima de 0,29 em módulo são significativas a 5%.

  • INMET: os dados das estações do INMET não estavam disponíveis para download automatizado durante a apuração; por isso a estação de referência é a do aeroporto.

Os dados e os scripts estão disponíveis para quem quiser refazer as contas.

Fontes: Iowa Environmental Mesonet (METAR SBCY, 2000-2026); NOAA Climate Prediction Center (RONI, ONI, índices semanais OISST e ENSO Diagnostic Discussion de 8/10/2026); NOAA PSL (CPC Unified Gauge e GPCP v2.3); ECMWF/Copernicus (reanálise ERA5), via Open-Meteo; INMET (previsão climática para outubro de 2026 e nota sobre o jato subtropical); INMET e INPE (prognóstico climático da primavera de 2026); CPTEC/INPE (efeitos do El Niño no Brasil); Climatempo (clima no Brasil em outubro de 2026); Revista Oeste (chuvas de setembro de 2026); UFMT (climatologia das frentes frias fortes em Cuiabá, 1996 a 2015); Natural Earth (contornos do mapa).