A Ladeira Mais Íngreme
Uma análise do 2º turno de 2026 em Cuiabá
Na semana passada, esta revista mostrou que Cuiabá não está dividida ao meio. Está inclinada. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro venceu em 165 dos 172 locais de votação, e o tamanho da vantagem acompanhava, mais do que qualquer outra característica, a escolaridade de quem vota em cada lugar.
No domingo, 25 de outubro, o país voltou às urnas e reelegeu Lula com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, segundo o TSE. Cuiabá deu 59,6% a Flávio. Refizemos as contas com o resultado do segundo turno, urna por urna, para responder a uma pergunta só: a inclinação mudou?
Mudou. Ficou mais íngreme.
O Que Veio das Urnas
O método é o da primeira matéria: os mesmos 172 locais, o mesmo perfil de eleitorado, as mesmas regras de cálculo. Quem chegou agora encontra lá a explicação de como ler uma regressão.
A novidade é a fonte dos votos. O arquivo de dados abertos do TSE com o resultado do segundo turno por seção ainda não havia sido publicado quando esta análise foi feita. Por isso, lemos diretamente os boletins de urna das 1.338 seções de Cuiabá, no portal de resultados do tribunal. A soma confere com a totalização oficial: 219.767 votos para Flávio e 149.091 para Lula.
Cada seção ficou no mesmo local de votação do primeiro turno, e cada local ficou na mesma fatia de escolaridade. Assim, os dois turnos são comparados sempre com o mesmo eleitorado em cada ponto do mapa. O que muda de uma rodada para a outra é só o voto.
Cento e Cinquenta e Dois a Vinte
Flávio terminou o segundo turno em Cuiabá com 59,6% dos válidos, e Lula, com 40,4%. A abstenção caiu de 18,2% para 17,2%. Brancos e nulos caíram de 3,1% para 2,4% de quem compareceu.
Dos 172 locais, Flávio venceu em 152. Lula venceu em 20, quase o triplo dos 7 do primeiro turno, e esses 20 somam 23.899 votos válidos, ou 6,5% da cidade. Metade deles fica na zona 55. Nas quatro zonas eleitorais, o vencedor continua o mesmo: 64,5% para Flávio na zona 1 (Centro, Porto, Quilombo), 59,5% na 39 (Dom Aquino, Boa Esperança), 57,9% na 51 (CPA, Bela Vista, Morada do Ouro) e 57,3% na 55 (Tijucal, Pedra 90, Osmar Cabral). Entre a zona mais bolsonarista e a menos bolsonarista, a distância passou de seis para sete pontos.


A comparação com o país ajuda a medir o domingo. No Brasil, Lula ganhou 6,6 pontos de um turno para o outro, e Flávio, 1,2. Em Cuiabá, Lula ganhou 6,4, quase o mesmo, e Flávio, 1,9. A diferença está no ponto de partida. O país saiu do primeiro turno separado por 1,9 ponto, e a mesma maré bastou para virar o placar. Cuiabá saiu separada por 23,6. A vantagem de Flávio caiu para 19,2 pontos, e a maré não chegou nem perto do topo.
A Maré
Lula cresceu em 171 dos 172 locais. O único recuo foi no Abrigo Bom Jesus, na Morada da Serra, que tem 57 votos válidos e onde ele venceu mesmo assim. Flávio também cresceu na maioria dos locais, em 156. Na mediana, Lula ganhou 6,3 pontos por local, e em oito de cada dez locais o ganho ficou entre 4,6 e 7,8 pontos. Não foi uma onda localizada. Foi a cidade inteira subindo junta.

Maré, porém, não redesenha o mapa. A correlação entre a votação de Lula em cada local no primeiro e no segundo turno é de 0,98, numa escala em que 1 significaria dois mapas idênticos. Onde ele era forte, continuou forte. Onde era fraco, continuou fraco.
Com um detalhe que dá título a esta matéria: a reta que liga os dois turnos sobe mais rápido que a linha da igualdade. Num local onde Lula tinha 20% no primeiro turno, a tendência aponta 24,6% no segundo. Num local onde tinha 45%, aponta 52,7%. Ele cresceu mais onde já era mais votado.

Degrau por Degrau
As fatias de escolaridade mostram o mesmo movimento de outro ângulo. Como na primeira matéria, o eleitorado foi dividido em cinco fatias do mesmo tamanho, da menor para a maior escolaridade. Na fatia de menor escolaridade, Lula foi de 41,8% para 48,9%, um ganho de 7,1 pontos. Na de maior, foi de 28,0% para 33,2%, um ganho de 5,2. Flávio fez o caminho inverso: ganhou 0,5 ponto embaixo e 3,6 em cima.

A distância entre a melhor e a pior fatia de Lula passou de 13,8 para 15,7 pontos. O segundo turno não aproximou os extremos da cidade. Afastou.
A Régua do Diploma
A regressão confirma. No primeiro turno, cada 10 pontos percentuais a mais de eleitores com curso superior num local correspondiam, em média, a 3,0 pontos a menos para Lula. No segundo, a 3,6. Num local hipotético sem nenhum eleitor com diploma, a reta agora parte de 49% para Lula, e não mais de 41%. E a parte da diferença entre os locais que a escolaridade explica sozinha subiu de 63% para 68%.
Renda e cor também explicam mais do que no primeiro turno quando testadas sozinhas: 49% e 56%. Com tudo ao mesmo tempo (escolaridade, renda, cor, idade e gênero), o modelo chega a 69%, e de novo só a escolaridade tem efeito estatisticamente significativo. Vale a mesma leitura da primeira matéria: renda e cor importam, mas em Cuiabá andam tão coladas à escolaridade que os dados não conseguem separar uma da outra.
O Saldo
De um turno para o outro, Lula somou 25.884 votos e Flávio, 11.130. Esses 37.014 votos a mais vêm de três lugares: os 29.794 votos que os demais candidatos tiveram no primeiro turno, 4.500 eleitores a mais nas urnas e 2.720 brancos e nulos a menos. Na cidade inteira, Lula ficou com 70% desse saldo.
O saldo também acompanha a ladeira. Na fatia de menor escolaridade, Lula ficou com 79% dele. Na de maior, com 57%. E não porque os outros candidatos fossem mais fortes embaixo: no primeiro turno, eles tiveram 7,7% dos válidos na fatia de menor escolaridade e 8,8% na de maior. A parcela dos terceiros em cada local quase não ajuda a prever onde Lula cresceu, e explica 3% da variação. A escolaridade explica 46%.

A abstenção completa o quadro. Ela caiu em 130 dos 172 locais, e caiu mais onde era maior: de 19,8% para 18,4% na fatia de menor escolaridade, de 17,4% para 16,8% na de maior. A primeira matéria apontava que a maior reserva de votos não dados estava justamente nos locais de menor escolaridade. Parte dela apareceu no dia 25.
No Pé da Ladeira
Na fatia de menor escolaridade, a vantagem de Flávio, que era de 8,8 pontos no primeiro turno, caiu para 2,2: 51,1% a 48,9%. Nas duas análises, é a primeira vez que uma fatia inteira da cidade fica a menos de três pontos do empate.
No Jardim Fortaleza, no Osmar Cabral e no Pedra 90, o núcleo do eleitorado de Lula na capital, ele foi de 41,5% para 48,7% e, ainda assim, perdeu o conjunto dos três bairros por 2,5 pontos. Venceu no Jardim Fortaleza (53,5%) e no Osmar Cabral (51,3%), perdeu no Pedra 90 (47,4%). Sua maior votação proporcional continua na escola do Nico Baracat, com 59,9%. O maior local que ele venceu foi a Escola Estadual Gustavo Kulmann, no Jardim Vitória: 2.613 votos contra 2.584, uma vitória por 29 votos num lugar onde, três semanas antes, havia perdido por 315.
No topo, nada saiu do lugar. No Quilombo e no Jardim Cuiabá, Flávio foi de 68,4% para 72,3%. O Colégio Maxi, no Quilombo, deu a ele 73,7%, a maior votação proporcional da cidade.
Quatro Anos Depois
Nos 130 locais que existiam nas duas eleições, com o mesmo nome e na mesma zona (78% dos votos de 2026), Lula teve 38,8% dos válidos no segundo turno de 2022 e 40,6% no de 2026. Jair Bolsonaro tinha 61,2% ali, e Flávio ficou com 59,4%. Em 112 dos 130 locais, a disputa ficou mais favorável a Lula do que quatro anos atrás. Na mediana, a diferença entre o candidato do PL e o do PT encolheu 3,4 pontos. E Lula ficou acima do próprio 2022 nas cinco fatias: 2,1 pontos a mais na de menor escolaridade, 1,6 na de maior.

É o dado que mais conversa com a primeira matéria. Ali, comparando primeiros turnos, Lula aparecia 3,9 pontos abaixo de 2022 na fatia de menor escolaridade, e a periferia era justamente onde ele perdia terreno. No segundo turno, essa queda não se repetiu. As duas leituras não se contradizem: o primeiro turno de cada eleição teve outros candidatos disputando o mesmo eleitorado, e o segundo é a rodada em que a escolha se reduz a dois nomes. Para a campanha petista, é o alívio desta análise. Para a bolsonarista, é o consolo da folga: mesmo com o recuo, quase seis em cada dez votos válidos desses locais ficaram com Flávio.
O Que a Urna Não Conta
Tudo o que está acima descreve lugares, não pessoas. Uma regressão mede o quanto duas coisas variam juntas. Não diz por que variam. Diploma não vota: quem vota é o eleitor, por razões que nenhum boletim de urna registra. Saber que os locais com mais diploma votaram mais em Flávio não autoriza dizer que o eleitor com diploma votou nele, nem que votou por causa do diploma.
O mesmo vale para o saldo, e com mais força. Saldo não é transferência. Os 37.014 votos a mais podem ter vindo de eleitores de Caiado indo para Lula e de eleitores de Cury indo para Flávio, ou do contrário, ou de gente que votou no primeiro turno e ficou em casa no segundo enquanto outros fizeram o caminho inverso. O boletim mostra o resultado de cada urna, não o caminho de cada voto. Quando este texto diz que Lula ficou com 79% do saldo numa fatia, diz exatamente isso, e nada além disso.
Valem também os cuidados da primeira matéria. Ninguém é obrigado a votar perto de casa. A renda e a cor vêm do Censo e descrevem o entorno de cada local, não o eleitor. A comparação com 2022 cobre só os locais que mantiveram nome e zona.
Feitas as ressalvas, o desenho é claro. A maré do segundo turno subiu na cidade inteira e subiu mais na parte baixa. O país virou o placar. Cuiabá manteve o vencedor e acentuou a forma. No domingo 18, os dois trios elétricos estacionaram do mesmo lado da ladeira. No domingo 25, a ladeira ficou mais íngreme.
Notas de Método
Votos do 2º turno: boletins de urna das 1.338 seções principais de Cuiabá, lidos do portal de resultados do TSE (arquivo de urna do pleito do 2º turno) em 26/10/2026. Totais da base: 219.767 votos para Flávio, 149.091 para Lula, 3.262 brancos, 5.682 nulos, 377.802 comparecimentos e 456.530 eleitores aptos, os mesmos números da totalização oficial do município.
Votos do 1º turno e de 2022: resultado oficial por seção (TSE, Dados Abertos). A recontagem do 1º turno reproduz, sem nenhuma diferença, a base publicada na primeira matéria.
Local de cada seção: cadastro de locais de votação do TSE, na versão do 1º turno. Quatro seções da zona 1 mudaram da Igreja Católica Santa Isabel para a Escola Municipal Professor Ranulpho Paes de Barros, no mesmo bairro, para o 2º turno. Elas foram mantidas no local do 1º turno, para comparar o mesmo eleitorado. Seções agregadas são contadas no local da seção principal.
Fatias de escolaridade: as mesmas da primeira matéria, quintis de eleitores ordenados pela parcela com no máximo o fundamental incompleto.
Regressão: mínimos quadrados ponderados pelos votos válidos de cada local, com erros-padrão robustos. Modelo completo com 165 locais: escolaridade (parcela com superior completo), renda (em logaritmo), cor (parcela preta ou parda), idade (parcelas de 16 a 24 e de 60 anos ou mais) e gênero (parcela de mulheres). A relação entre os turnos (a reta que liga o 1º ao 2º) usa a mesma ponderação.
Saldo: votos de Lula e Flávio no 2º turno menos os votos dos dois no 1º. Por construção, é igual à soma dos votos dos demais candidatos no 1º turno, da variação do comparecimento e da redução de brancos e nulos.
2022 x 2026: locais pareados por nome e zona (130 de 172), a mesma regra da primeira matéria, agora com os segundos turnos.
Os dados e os scripts estão disponíveis para quem quiser refazer as contas.
Fontes: TSE, portal de resultados (boletins de urna do 2º turno de 2026 em Cuiabá; totalização do município); TSE, Portal de Dados Abertos (votação por seção de 2026 e 2022, cadastro de locais de votação, perfil do eleitorado por seção); IBGE, Censo Demográfico 2022 (agregados por setores censitários, via base da primeira matéria); TSE, anúncio do resultado nacional do 2º turno (25/10/2026).



