O Melhor de Qualquer Lugar
Sobre o Prêmio Encontro Gastrô e o que a lista de melhores restaurantes diz de Cuiabá
O Prêmio Encontro Gastrô chegou a Cuiabá em primeira edição, com o subtítulo O Melhor de Cuiabá. A categoria mais importante da cédula repete o nome da cidade: Melhor Restaurante de Cuiabá. São onze candidatos, e um deles é o Coco Bambu. Se vencer em dezembro, o melhor restaurante da cidade terá um gêmeo no Shopping Estação de Belo Horizonte, outro em Campo Grande, outro em Jundiaí e quase uma centena de irmãos pelo país. A indicação não diz nada de ruim sobre o camarão. Diz alguma coisa sobre quem montou a lista e muita coisa sobre a cidade. A carência de Cuiabá não está no prato de todo dia, que a própria cédula mostra farto. Está no andar de cima, onde há tão poucas casas que uma das onze cadeiras acabou ocupada por Fortaleza.
O Mérito de Repetir
Antes da crítica, o currículo, porque ele é bom. O Coco Bambu nasceu como pastelaria em Fortaleza, em 1989. Ganhou o nome atual em 2001 e só pôs frutos do mar no cardápio em 2008. Em junho deste ano, inaugurou a 101ª unidade. Em 2025, a rede somava 10 mil colaboradores e projetava R$ 2,2 bilhões em vendas. A unidade cuiabana, no Shopping Estação, foi a 34ª da rede: 2 mil metros quadrados e 750 lugares.
Esta matéria não é uma review: não avaliamos a unidade cuiabana, e nada do que vem a seguir depende do ponto do camarão. Nenhuma rede chega a cem endereços sem saber repetir, e repetir bem é competência. Consistência, aliás, é um dos eixos desta revista, e a rede tem de sobra. O público reconhece. Na pesquisa Datafolha de 2026 para O Melhor de São Paulo, o Coco Bambu recebeu 4% das menções espontâneas para melhor restaurante. Ficou entre os vencedores, ao lado do D.O.M. e do Terraço Itália, e levou o primeiro lugar como restaurante para ir em família.
Mas consistência de rede é uma virtude de tipo específico: é a promessa de que o prato servido em Cuiabá sairá igual ao de Jundiaí. É mérito real, só que sem endereço, e um prêmio chamado O Melhor de Cuiabá deveria, antes de tudo, ter um. Há também uma diferença de origem. Em São Paulo, quem pôs o Coco Bambu ao lado do D.O.M. foi o público, respondendo de memória a uma pesquisa. Em Cuiabá, quem pôs foi a curadoria. O público tem todo o direito de gostar do que gosta. A curadoria existe para filtrar.
Do lado de dentro, a avaliação foi mais curta. Perguntado por esta revista se o Coco Bambu era uma escolha certa para melhor restaurante da cidade, um dos indicados ao prêmio respondeu em três palavras: tem outros melhores. Ele concorre em outra categoria e não disputa nada com a rede.
O Prêmio Também Tem Filiais
A ironia é que o prêmio também é de rede. O Encontro Gastrô nasceu em Belo Horizonte em 2003 e chegou a Brasília, onde fez a 13ª edição este ano. Estreou em Goiânia em 2025 e agora desembarca em Cuiabá pelas mãos da revista Encontro e do Correio Braziliense, com apresentação da Abrasel e o Sebrae de Mato Grosso no nome oficial: Prêmio Sebrae de Gastronomia Encontro Gastrô Cuiabá 2026-2027. A mudança de endereço ainda não terminou. Na descrição que a página de votação exibe nos buscadores, o eleitor é convidado a escolher os melhores da capital mineira.
As filiais do prêmio e as da rede se conhecem bem. Em Belo Horizonte, em 2019, o Encontro Gastrô elegeu restaurante revelação a primeira unidade do Coco Bambu na cidade, que era a 25ª da rede. Revelação, no caso, de uma receita que já tinha sido revelada 24 vezes. Em Brasília, a casa levou bufê self-service e peixes e frutos do mar em 2025, e de novo o bufê em 2026. Em Goiânia, na edição de estreia, venceu em peixes e frutos do mar. Em todas as capitais por onde o prêmio passou, o Coco Bambu saiu com troféu. Em Cuiabá, a categoria de frutos do mar não existe. No lugar dela há Peixaria/Regional, e a rede não está lá. Sem a categoria de costume, foi parar direto na principal.
E há o nome na faixa. Sebrae é o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, e nas categorias de baixo o prêmio honra a sigla: baguncinha, salgados, espetaria, peixaria, pequenos negócios fazendo comida de verdade. Na categoria principal, entre os candidatos, está uma rede de 101 unidades e bilhões em vendas. O Coco Bambu também já foi pequena empresa. Era uma pastelaria de 20 metros quadrados em Fortaleza. Faz 37 anos.
Onze Cadeiras
Seria fácil parar no Coco Bambu e culpar a curadoria. Mas a mesma cédula, lida com atenção, conta uma história mais incômoda, e essa é sobre a cidade.
Na base, Cuiabá é farta. Há catorze indicados a melhor bar ou boteco, treze em peixaria, onze em cozinha japonesa e oito em baguncinha. No topo, a conta encolhe. Numa capital de 650 mil habitantes, Cozinha Contemporânea tem três candidatos, a menor lista da cédula inteira. Há mais baguncinhas na disputa do que cozinhas contemporâneas, e as três contemporâneas também estão entre os onze candidatos a melhor restaurante. O padrão se repete nas categorias que medem serviço e cozinha de autor. Dos seis indicados a maître ou sommelier do ano, os seis trabalham em casas que disputam o título principal. Dos seis chefs do ano, cinco. Das nove cartas de vinho, sete.
O andar de cima de Cuiabá, desenhado pela própria curadoria, é um círculo de pouco mais de uma dezena de casas que se revezam em todas as cadeiras. Visto de fora, o retrato é o mesmo: no ranking de 2024 da Exame Casual com os cem melhores restaurantes do país, Cuiabá apareceu uma única vez, com o Mahalo, em 98º. A cidade não é carente de comida. É carente de andar de cima.
É nessa escassez que entram as redes. Quando faltam casas que só poderiam existir aqui, sobra espaço para quem chega pronto. O prêmio apresenta um dos grupos como o do fine dining da cidade, e nele há duas redes: o Coco Bambu, em Cozinha Variada e na disputa principal, e o Outback, indicado em Carne/Parrilla. Uma veio de Fortaleza, a outra de Tampa, na Flórida. As duas abriram a primeira unidade cuiabana no mesmo shopping, no mesmo mês de 2019.
Treze Peixarias e Nenhuma Cadeira
O prêmio fez a lição de casa na parte regional, e isso precisa ser dito. No lançamento, o idealizador André Lamounier, vice-presidente do Correio Braziliense, contou que as 33 categorias foram definidas pelo curador da edição, o professor Joca, "inclusive buscando abarcar os regionalismos locais". Há baguncinha, espetaria e restaurante turístico. Há também uma Peixaria/Regional com treze indicados, a segunda maior lista da cédula. Entre as cafeterias aparece até uma casa chamada Bolo de Arroz & Cuiabanices, o que esta revista registra com alívio, já que o bolo de arroz faltou ao Festival do Café do Goiabeiras.
O problema está no andar de cima. Nenhuma das treze casas de Peixaria/Regional aparece entre os onze candidatos a melhor restaurante. A cozinha cuiabana chega ao topo por um único caminho, o da tradução. É o caso do Mahalo, de Ariani Malouf, que leva ingredientes regionais para a cozinha contemporânea e já teve o seu pintado pantaneiro em crosta de baru servido nos voos internacionais da LATAM. É o tipo de ponte que a cidade precisaria ter em dobro. A cozinha cuiabana sem tradução, a do pirão, da ventrecha e da mojica, ficou toda no térreo.
Restam duas hipóteses, e nenhuma é confortável. Se nenhuma das treze está à altura de disputar o título, a carência é da cidade. Se alguma está e ficou de fora, a carência é da lista. Em qualquer dos casos, numa capital plantada no meio do continente, que come peixe de rio há três séculos, o candidato de frutos do mar a melhor restaurante veio do litoral do Ceará.
Três Pontos para a Internet
Falta saber quem decide. A página de votação promete uma eleição que "aposta na participação e representatividade do público". As regras apresentadas no lançamento contam outra coisa. Na votação popular, os três primeiros de cada categoria recebem três, dois e um ponto. Cada voto de jurado vale um ponto, e são 50 jurados convidados pela organização. Na aritmética do prêmio, quatro jurados pesam mais do que o primeiro lugar da internet inteira.
Sobre os troféus da rede nas outras capitais, o mesmo indicado lembrou que o voto é popular e apontou o problema desses prêmios: as redes sociais. Para Belo Horizonte, a explicação se sustenta. Lá, na edição de 2025, a final foi decidida só pela internet, e uma rede com mais de cem endereços chega a qualquer votação aberta com vantagem de saída. Em Cuiabá, pela regra divulgada no lançamento, a internet vale no máximo três pontos. Se o Coco Bambu vencer aqui, as redes sociais terão um álibi.
Dos jurados, sabe-se o perfil. Lamounier explicou que o jurado procurado é "o que a gente chama de comensal": alguém que come fora duas ou três vezes por semana, e não um especialista. A divulgação do prêmio, por sua vez, anuncia um júri técnico. Comensal e técnico são coisas diferentes, e o prêmio usa as duas palavras.
Há ainda um detalhe de formulário. A categoria Melhor Restaurante de Cuiabá aparece nas seis cédulas, uma por grupo, e cada CPF pode votar uma vez em cada grupo. O mesmo eleitor pode, portanto, escolher o melhor restaurante da cidade até seis vezes. É assim que 38 campos de votação viram 33 categorias na divulgação. Com o teto de três pontos, a repetição pesa pouco. A cédula pergunta seis vezes ao público qual é o melhor restaurante de Cuiabá. Quem responde, na prática, são 50 jurados.
Conclusão
Nada disso é motivo para torcer contra o camarão. O Coco Bambu faz o que se propõe a fazer, numa escala que poucos alcançam, e não tem culpa de ter sido chamado. A indicação incomoda por outro motivo: ela mede o tamanho do vazio ao redor. A própria cédula mostra que Cuiabá tem um topo, ainda que curto, e uma base farta de boteco, peixaria e baguncinha. Falta a ponte entre um e outro: mais casas que levem a cidade para o andar de cima, em vez de esperar que o andar de cima chegue de fora, pronto e igual.
Enquanto essas casas faltarem, qualquer lista de onze vai precisar de reforço, e o reforço virá como vêm as redes, com 750 lugares e o cardápio já decidido. O Coco Bambu pode até ser o melhor de qualquer lugar. O prêmio prometeu o de Cuiabá.
Os onze indicados a Melhor Restaurante de Cuiabá: Canto, Coco Bambu, Due Ladroni, Haru, Mahalo, Meat's Grill, Saggezza, Talavera, Toroari, Varadero e Village.
Serviço: votação on-line até o fim de novembro, em encontrogastro.com.br/cba, uma vez por CPF em cada grupo. O resultado soma os pontos da internet (três, dois e um para os três primeiros) aos votos de 50 jurados (um ponto cada). Cerimônia em 14 de dezembro.
Fontes: página de votação do prêmio, consultada em 30 de outubro de 2026; Olhar Direto, Infoverus, MT Fatos e FolhaMax (lançamento e regras); Estado de Minas, Correio Braziliense e Jornal Opção (vencedores em Belo Horizonte, Brasília e Goiânia); Revista Encontro (formato da edição de Belo Horizonte em 2025); Movimento Econômico, O Povo, Economic News Brasil, Diário do Comércio e Giro News (dados da rede); Datafolha, O Melhor de São Paulo 2026; Exame Casual, 100 Melhores Restaurantes do Brasil 2024; LATAM, programa Sabor à Brasileira; um dos indicados ao prêmio, ouvido por esta revista sob anonimato.



