A Cidade Inclinada
Uma análise de dados do 1º turno de 2026 em Cuiabá
Esta é uma análise científica da votação do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 na capital cuiabana. Por meio de números e de um pouco de regressão linear, esta revista buscou entender como os votos se distribuíram pela cidade e quais características de cada bairro acompanham essa distribuição.
A pergunta veio da rua. No domingo, 18 de outubro, a uma semana do segundo turno, apoiadores de Lula se reuniram na Arena Pantanal e apoiadores de Flávio Bolsonaro, na Praça 8 de Abril, em frente ao Choppão. Os dois atos aconteceram a 2.268 metros um do outro, e Cuiabá voltou a ser descrita como uma cidade partida ao meio. Os dados contam outra história.
O Que Entrou na Conta
Para a análise, usamos os seguintes parâmetros.
Do Censo 2022 (IBGE), por setor censitário:
rendimento nominal médio mensal do responsável pelo domicílio; população por cor ou raça (branca, preta, parda, amarela e indígena); a malha dos setores censitários, que permite ligar cada pedaço da cidade ao local de votação mais próximo.
Do Tribunal Superior Eleitoral (TSE):
resultado para presidente, urna por urna, no 1º turno de 2026 e nos dois turnos de 2022;
comparecimento e abstenção de cada seção;
escolaridade, faixa etária e gênero dos eleitores de cada seção;
endereço e coordenadas dos locais de votação.
A escolaridade vem do cadastro do TSE, e não do Censo, porque descreve exatamente os eleitores de cada urna, e não os moradores do entorno.
A unidade de análise é o local de votação, a escola ou o prédio onde ficam as urnas. Cuiabá tem 172 deles, que reúnem 1.338 urnas e pouco mais de 2.600 eleitores cada, em média. É a menor unidade da cidade com resultado, perfil do eleitor e endereço conhecidos ao mesmo tempo.
Como Ler uma Regressão
Regressão linear é uma forma de medir quanto uma coisa varia quando outra varia. No nosso caso, a pergunta é: quando a parcela de eleitores com diploma de um local sobe, quanto muda o voto em Lula? E isso continua valendo depois de levar em conta a renda, a cor, a idade e o gênero de quem vota ali?
O resultado se resume em dois números. A inclinação diz quanto o voto muda para cada ponto de diferença no perfil do local. O R² vai de 0% a 100% e diz quanto da diferença de votação entre os locais o modelo consegue explicar. Um R² de 0% significa que o perfil não diz nada sobre o voto; um de 100%, que diz tudo.
Cento e Sessenta e Cinco a Sete
Primeiro, o resultado. Cuiabá deu 57,7% dos votos válidos a Flávio Bolsonaro e 34,1% a Lula. Os demais candidatos dividiram 8,2%, com Augusto Cury (3,0%), Ronaldo Caiado (2,3%) e Renan Santos (2,2%) à frente. A abstenção ficou em 18,2%. É uma vantagem bem mais larga que a nacional, onde Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% e Lula com 45,16%.
Dos 172 locais de votação, Flávio venceu em 165. Lula venceu em 7, que juntos somam pouco mais de 5 mil votos válidos, ou 1,4% da cidade. Nas quatro zonas eleitorais, o vencedor é o mesmo: 62,1% para Flávio na zona 1 (Centro, Porto, Quilombo), 57,3% na 39 (Dom Aquino, Boa Esperança), 56,2% na 51 (CPA, Bela Vista, Morada do Ouro) e 56,0% na 55 (Tijucal, Pedra 90, Osmar Cabral).

Entre a zona mais bolsonarista e a menos bolsonarista, seis pontos. A cidade não tem duas metades. Tem um vencedor em quase todo lugar e uma variação de intensidade, e é essa variação que a análise tenta explicar.

A Inclinação do Diploma
O primeiro teste é simples. Dividimos os eleitores de Cuiabá em cinco fatias do mesmo tamanho, conforme a parcela de gente com no máximo o ensino fundamental incompleto no seu local de votação. Na fatia de menor escolaridade, Flávio tem 50,5% e Lula, 41,8%. Na de maior, Flávio sobe a 63,2% e Lula cai a 28,0%. As fatias do meio seguem a mesma escada, degrau por degrau.

Os extremos do mapa repetem o padrão. No Quilombo e no Jardim Cuiabá, onde 49% do eleitorado tem curso superior completo, Flávio teve 68,4%. No Jardim Fortaleza, no Osmar Cabral e no Pedra 90, onde 28% dos eleitores não completaram o fundamental e só 5% têm diploma, Lula teve 41,5%. É o núcleo do seu eleitorado na capital, e ainda assim ele perdeu: dos três bairros, só no Jardim Fortaleza ficou à frente, por menos de um ponto. Os dois blocos da UFMT que funcionam como local de votação, no Boa Esperança, deram 59,0% e 65,6% a Flávio. (Quem vota no campus é o eleitor registrado ali, em boa parte morador do entorno, não necessariamente o professor ou o estudante.)
O Que a Regressão Encontrou
Com uma regressão simples, só com a escolaridade, a relação fica medida: a cada 10 pontos percentuais a mais de eleitores com curso superior num local, Lula tem, em média, 3 pontos a menos dos votos válidos. Num local hipotético sem nenhum eleitor com diploma, a reta parte de 41% para Lula. O R² é de 63%: só a escolaridade explica quase dois terços da diferença de votação entre os locais de Cuiabá.

A pergunta seguinte é se o diploma não estaria apenas fazendo as vezes da renda ou da cor. As três andam juntas em Cuiabá, como em quase todo o Brasil: onde há mais diploma há mais renda e mais moradores brancos. Testadas uma de cada vez, todas explicam bastante: a renda, 47% da variação; a cor, 53%; a escolaridade, 63%.
Por isso rodamos uma segunda regressão, com tudo ao mesmo tempo: escolaridade, renda, cor, idade e gênero. O R² sobe de 63% para apenas 64%. E só a escolaridade continua com efeito estatisticamente significativo (a chance de um efeito desse tamanho aparecer por puro acaso é menor que 0,1%). Renda, cor, idade e gênero, uma vez que a escolaridade está na conta, não se distinguem de zero.
Isso não quer dizer que renda e cor não importem para o voto. Quer dizer que, em Cuiabá, elas estão tão ligadas à escolaridade que os dados não conseguem separar uma da outra, e que, entre as três, a escolaridade é a que melhor descreve a votação de cada lugar.
O resultado contraria duas ideias que circulam nos dois campos. A primeira, comum em parte da direita, diz que a esquerda é coisa de gente letrada. Em Cuiabá, o eleitorado com mais anos de escola é justamente o mais bolsonarista da cidade. A segunda, comum em parte da esquerda, diz que a periferia é naturalmente sua. Também não: mesmo na fatia de menor escolaridade, Flávio tem maioria absoluta, e as vitórias de Lula cabem em sete locais de votação.
O Desgaste na Base
A comparação com 2022 completa o retrato. Nos 130 locais que existiam nas duas eleições, com o mesmo nome e na mesma zona, Lula teve 36,9% dos válidos no primeiro turno de quatro anos atrás e 34,2% agora. Caiu em 109 deles.
A queda não foi igual em toda a cidade. Na fatia de maior escolaridade, Lula perdeu 0,6 ponto. Na de menor, perdeu 3,9; na segunda de menor, 4,2. A direita fez o caminho inverso: cresceu 1,3 ponto entre os mais escolarizados (Jair Bolsonaro tinha 62,2% ali em 2022; Flávio, 63,4%) e 3,2 entre os menos (de 47,2% para 50,4%).

Em outras palavras: a parte da cidade que já votava em Bolsonaro com folga ficou mais ou menos onde estava. Quem se moveu foi a periferia, justamente onde Lula ainda é mais forte, e se moveu na direção de Flávio. Para a campanha petista, é o dado mais desconfortável desta análise. Para a bolsonarista, é a explicação de por que o primeiro turno em Cuiabá saiu tão largo.
E os Atos de Domingo?
Os dados permitem olhar também para o entorno de cada ato. Num raio de 1,5 quilômetro do Choppão, Flávio teve 66,1% dos válidos, e 47% do eleitorado tem diploma. É a praça que a imprensa local já trata como endereço habitual das manifestações da direita na capital.
A Arena Pantanal também fica em área de maioria de Flávio: no mesmo raio, ele teve 62,9% e Lula, 29,4%. O Jardim Fortaleza e o Osmar Cabral, onde Lula foi mais votado, ficam a 14 quilômetros dali. A escola do Nico Baracat, onde ele teve sua maior votação proporcional, a 15. O Pedra 90, a quase 19. A escolha tem lógica: a Arena é central, conhecida e acessível de toda a cidade. Mas, no mapa, o ato pela reeleição aconteceu mais perto do eleitor do adversário que do próprio.

Um último dado interessa aos dois palanques por igual. A abstenção cresce onde a escolaridade cai: 19,8% na fatia de menor estudo, 17,4% na de maior. É nas escolas do Sul e do Norte da cidade que está a maior reserva de votos não dados no primeiro turno.
O Que a Planilha Não Diz
Dados de lugar não são dados de pessoa. Saber que os locais com mais diploma votaram mais em Flávio não autoriza dizer que cada eleitor com diploma votou nele. A análise descreve o comportamento de locais inteiros, não de indivíduos, e é com essa régua que tudo acima deve ser lido.
Há outros cuidados. Ninguém é obrigado a votar perto de casa, e muita gente mantém o título no bairro onde morava há dez anos. A renda e a cor vêm do Censo, atribuídas a cada local pelos setores censitários mais próximos, o que é uma aproximação do entorno, não do eleitor. A cor declarada no próprio cadastro do TSE ficou de fora, porque 73% dos eleitores de Cuiabá não a informaram. E a comparação com 2022 cobre só os locais que mantiveram nome e zona, que somam 78% dos votos de 2026.
Nenhuma dessas ressalvas muda o desenho geral. Cuiabá não está dividida ao meio. Está inclinada, e os dois trios elétricos de domingo estacionaram no mesmo lado da ladeira.
Notas Técnicas
Votos: resultado oficial por seção eleitoral (TSE, Dados Abertos). O total da base bate com a totalização oficial de Cuiabá: 208.637 votos para Flávio e 123.207 para Lula.
Seções agregadas: contadas no local da seção principal, onde de fato votaram.
Ligação com o Censo: cada setor censitário urbano foi atribuído ao local de votação mais próximo do seu centro. A renda do local é a média ponderada pelo número de responsáveis por domicílio.
Fatias de escolaridade: quintis de eleitores (não de locais), ordenados pela parcela com no máximo o fundamental incompleto.
Regressão: mínimos quadrados ponderados pelos votos válidos de cada local, com erros-padrão robustos. Modelo completo com 165 locais: escolaridade (parcela com superior completo), renda (em logaritmo), cor (parcela preta ou parda), idade (parcelas de 16 a 24 e de 60 anos ou mais) e gênero (parcela de mulheres).
2022 x 2026: locais pareados por nome e zona (130 de 172).
Atos: coordenadas da Arena Pantanal e do Choppão pelo OpenStreetMap; entorno de 1,5 km.
Os dados e os scripts estão disponíveis para quem quiser refazer as contas.
Fontes: TSE, Portal de Dados Abertos (resultados 2026 e 2022, perfil do eleitorado, eleitorado por local de votação); IBGE, Censo Demográfico 2022 (agregados por setores censitários); Olhar Direto (cobertura dos atos de 18/10/2026); Correio da Manhã (resultado nacional do 1º turno).



