Review: Don Grão

Há cozinhas que erram por desleixo e há as que erram por ambição. O Don Grão pertence à segunda espécie — a mais triste de todas, porque o fracasso aqui exigiu trabalho. É um bufê que aposta em ceviche de banana da terra, em manga picada, em penumbra cenográfica, e que no meio do caminho esquece de cozinhar o macarrão no ponto e de temperar o frango com algo que não seja cor. O prato é um ensaio sobre boas intenções malresolvidas.


A Massa que Desfaz sobre Si

O macarrão chega cozido além de qualquer perdão — passou do ponto e seguiu viagem. Despedaça-se na colher antes mesmo de chegar à boca, sem estrutura para se sustentar como massa. E não há nada para compensar a textura: nenhum sal, nenhum fundo, apenas uma lembrança pálida de queijo que mais parece sugestão do que ingrediente. É molho branco no sentido mais literal e mais derrotado da expressão — branco de ausência.

A Tirania do Limão

O ceviche de banana da terra é a ideia mais corajosa do prato, e é também onde a coragem cobra a conta. O limão não tempera: domina. Sobe sozinho, abafa a banana inteira e transforma o que deveria ser um diálogo entre acidez e doçura num monólogo azedo. Sobra a fruta como refém. É o tipo de prato que se vende como ousadia e se entrega como desequilíbrio — inusitado, sim, mas inusitado não é sinônimo de bom.

A Cor Não é Tempero

O frango parece ter sido temperado com uma única convicção: colorau, e muito. Vermelho a ponto de constranger, uma maquiagem que promete sabor pela aparência e não cumpre na mordida. É cosmético, não culinário. E aqui devo uma confissão de viés: evito carne vermelha por hábito, raramente é o que procuro num prato. Que o bife tenha sido, ainda assim, a coisa mais bem resolvida da mesa — honesto, no ponto, sem espetáculo — é um elogio que me custa e que, exatamente por isso, é sincero. Foi a única coisa que a casa pareceu saber fazer sem disfarce.

O Preço Inocente

Sejamos justos: R$ 34,37, com uma Coca Zero KS incluída, é um valor civilizado. Não há ultraje aqui, nenhum litro de refrigerante vendido a peso de ouro, nenhuma conta que peça desculpas. O Don Grão não rouba — e essa é, talvez, a parte mais frustrante. Porque quando o preço é justo, a comida perde o álibi. Não dá para culpar a ganância por um macarrão desfeito ou por um limão que engole a banana; resta só a execução, nua, sem a desculpa do abuso. É um valor que não ofende, mas que se arrepende na primeira garfada.

Conclusão

A iluminação baixa não é acaso: penumbra é o figurino de quem prefere que você sinta o ambiente antes de examinar o prato. Mas estética não cozinha massa nem equilibra acidez, e nenhum cenário montado redime um bufê cujas combinações inusitadas não conversam entre si. No conjunto, nada se encontra — talvez por culpa das minhas escolhas, admito, mas um bufê que aposta na ousadia tem o dever de fazer a ousadia funcionar. Cumpre, no fim, a função mais elementar de qualquer comida: sustenta. É o elogio mais frio que existe.


Nota: 3.8 / 10

O Don Grão confunde ambição com competência: ceviche de banana da terra refém de um limão tirânico, macarrão tão cozido que se rende na colher, frango pintado de colorau como quem maquia a ausência de tempero. A penumbra disfarça, mas não cozinha. A R$ 34,37 com refrigerante, o preço não ofende — o que torna a queda pior, porque sem o álibi da ganância sobra só a execução. Salva-se o bife, honesto e no ponto, num elogio que dói por vir de quem nem carne vermelha costuma comer. Sustenta. Que é o que se diz de uma comida quando não há mais nada de bom para dizer.