Review: Festival do Café do Goiabeiras Shopping (2ª edição)
Toda feira de café ensina a mesma lição, e esta ensinou com rara clareza: o que se destaca nunca é o stand mais bem vestido, é o que tem um produtor por trás. Na segunda edição do Festival do Café do Goiabeiras Shopping, nos dias 26 e 27 de setembro, as marcas com mais dourado na embalagem entregaram menos no copo, e as duas grandes surpresas do fim de semana vieram de gente pequena, com rótulo simples e produto que dispensa cenografia. A pena é que o festival tenha reservado tão pouco chão para quem mais tinha a oferecer.
Doce por Conta Própria
Irretocável é adjetivo que este projeto raramente gasta. A Kofi o recebe sem desconto. O Chocolate & Caramelo, um Catucaí Amarelo do Sítio Ouro Verde, em Minas Gerais, com pontuação acima de 85 na escala SCA e torra média, chega à boca licoroso e macio, com um corpo que desliza em vez de pesar. Nada nele agride. O rótulo promete chocolate e caramelo e cumpre ao pé da letra, com o acréscimo de uma baunilha discreta ao fundo que nem constava na embalagem.
É um café leve no melhor sentido da palavra: leve como café de verdade deveria ser, e como a maior parte do café vendido neste país esqueceu de ser. A torra média explica boa parte do milagre, que de milagre não tem nada. O açúcar natural do grão foi preservado em vez de incinerado.
A marca estampa na caixa que café bom não precisa de açúcar. Não precisou.
Kofi: 9.2 / 10
A Trinta e Oito Quilômetros

A melhor surpresa do fim de semana não veio de longe. Os queijos da Quinta da Cartucheira são feitos em Nossa Senhora do Livramento, a 38 quilômetros de Cuiabá. É o interior de Mato Grosso produzindo com técnica aquilo que o mercado insiste em buscar em outros estados e outros continentes.
Os queijos derretem na boca e fazem o que queijo artesanal bom faz: pedem a próxima fatia antes que a anterior termine. Mas o clamor vai para o Esmeralda, o azul da casa, de sabor terroso e marcante, cremoso na textura e persistente muito depois de engolido. Não é um azul educado, desses que pedem desculpas pelo próprio mofo. É um queijo que chega sem pedir licença, e tem motivo para isso.
O currículo existe: ouro na ExpoQueijo Brasil de 2023 e bronze na categoria mofo azul do World Cheese Awards. Mas não foi ele que decidiu. Decidiu o palito de degustação.
Quinta da Cartucheira: 8.9 / 10
Cacarecos sem Bula

Do outro lado da praça, o stand da Roots se dedicava a um gênero à parte no festival: quinquilharias e cacarecos. Prensa francesa, AeroPress e o sortimento de apetrechos que costuma orbitar o café feito em casa. Nada contra o equipamento, que é legítimo e, bem usado, extrai café excelente. O problema está no "bem usado". Boa parte dos visitantes olhava para aqueles cilindros sem saber como funcionam, e saía com a dúvida intacta.
Num festival que se propõe a aproximar o público da cultura do café, vender o instrumento sem ensinar o gesto é reduzir cultura a mercadoria. Uma prensa francesa sem explicação é só um pote de vidro com pretensões. Sem quem ensine, todo utensílio vira cacareco.
Roots: 3.4 / 10. Os pontos são da prensa. Os cacarecos não pontuam, e a explicação sequer compareceu.
O Incêndio em Cápsula

Se a Kofi mostrou o que a torra média preserva, a L'OR se encarregou de demonstrar o que a torra além da conta destrói. O café das cápsulas chegou com notas de fio queimado e incêndio florestal, o amargor carbonizado de um grão que passou tempo demais no fogo e perdeu, junto com o tempo, tudo o que tinha a dizer. A cápsula em destaque se chamava Estremo, intensidade 10 na escala da própria marca. Ninguém poderá acusar o rótulo de propaganda enganosa.
Em setembro, o cuiabano já respira esse sabor de graça. Encapsulá-lo foi excesso de zelo.
Completando a vitrine, sachês de um cappuccino que se anuncia premium e carrega na frente a lupa de alto em açúcar adicionado. A poucos metros dali, a Kofi avisava que café bom dispensa açúcar. O festival montou a comparação sozinho.
L'OR: 1.8 / 10. A intensidade era 10. A nota não acompanhou.
Conclusão
No fim, o festival deixa uma pergunta maior que qualquer xícara: onde estavam os pequenos? Os produtores de Minas Gerais, a charcutaria e os embutidos do interior de Mato Grosso, os confeiteiros de Cuiabá com os clássicos que dão sentido a um café da tarde nesta cidade: bolo de arroz, bolo de queijo, bolo de milho. Minas compareceu dentro de um pacote de 250 gramas. O interior de Mato Grosso veio numa tábua de queijos e provou que merecia a mesa inteira. Cuiabá, anfitriã, esqueceu de trazer o bolo.
A pergunta tem destinatário. Segundo a divulgação oficial, a curadoria desta edição coube ao proprietário da Roots Café. O mesmo balcão das quinquilharias.
O resto coube em poucos metros quadrados de piso polido, onde alguns expositores mereciam bem mais espaço do que receberam. Festival de café se mede pelo que chega ao copo. Este teve dois copos memoráveis. Para um fim de semana inteiro, é pouco.
Nota do festival: 5.4 / 10
A segunda edição do Festival do Café do Goiabeiras confirma que, em feira de café, quanto mais simples o rótulo, melhor o conteúdo. A Kofi (9.2) serviu um café irretocável, doce por conta própria. A Quinta da Cartucheira (8.9) trouxe de Livramento um queijo azul que chega sem pedir licença. A Roots (3.4) vendeu quinquilharias sem ensinar a usá-las, e a L'OR (1.8) encapsulou o gosto de setembro em Cuiabá. A média dos quatro stands dá 5.8. O festival fica com 5.4, porque evento também se mede por quem não veio, e a diferença tem nome: bolo de arroz. Dois stands valem a visita. O festival, ainda não.




