Review: Sweeterella
O Sweeterella é o tipo de lugar que entende perfeitamente o que quer ser — e quase consegue. A decoração clássica, pitoresca, com ares de confeitaria europeia de outro século, constrói uma promessa visual que poucos estabelecimentos de Cuiabá se atrevem a fazer. O problema é que a cozinha nem sempre assina o cheque que o salão emite.
O Cenário
Há mérito real na ambientação, há uma curadoria visual que remete a algo mais antigo, mais deliberado. É um espaço que convida à permanência, ao café lento, à tarde sem compromisso. Nesse quesito, entrega.

O Crème Brûlée que Não Foi
O crème brûlée chega com sinais promissores: a casquinha caramelizada está lá, e o aroma denuncia fava de baunilha real — não essência, não vanilina. Alguém naquela cozinha sabe o que deveria estar fazendo. O problema é que algo saiu do controle no processo: o creme talhou. A textura que deveria ser um espelho liso e trêmulo se transformou numa espécie de mousse granulosa de creme de leite com baunilha. Comestível? Sim. Agradável, até. Mas não é crème brûlée — é um acidente que deu parcialmente certo. A diferença entre um creme perfeito e um talhado está em graus de temperatura e segundos de cocção. É o tipo de erro que separa execução competente de execução descuidada.

A Empanada e Suas Contradições
A empanada chega polvilhada com açúcar de confeiteiro — uma decisão que paira entre a ousadia e o engano. Seria intencional? Um toque de casa? Ou a cozinha confundiu o pedido com uma sobremesa? O texto na embalagem não esclarece, e o paladar fica dividido. A massa, em si, é bem feita: estrutura firme, laminação correta. O recheio de carne está bem temperado — talvez o item mais consistente do pedido. Mas falta o gratinado por cima, aquele dourado de queijo que daria ao conjunto identidade e contraste térmico. Sem ele, é uma empanada competente que não chega a ser memorável.

Os Detalhes que Incomodam
A soda italiana de pink lemonade é xarope industrial com gás — funcional, previsível, sem qualquer tentativa de distinção. É o tipo de bebida que existe no cardápio porque precisa existir, não porque alguém pensou nela.
E há um detalhe de higiene que não passa despercebido: entre as atendentes uniformizadas e de touca, uma pessoa transitava repetidamente pela cozinha sem proteção capilar. Num estabelecimento que investe tanto em aparência, o descuido é especialmente dissonante. A estética do salão deveria se estender até onde o cliente não vê.
Conclusão
O Sweeterella é um lugar de tarde — conveniente, bonito, sem grandes pretensões gastronômicas apesar da robustez visual. A decoração promete uma experiência que a cozinha ainda não aprendeu a entregar com consistência. Há ingredientes certos (fava de baunilha, massa bem feita, tempero presente), mas a execução tropeça onde deveria brilhar: no controle, no detalhe, na finalização. É o retrato de um estabelecimento que sabe montar o palco mas ainda ensaia o espetáculo.
Nota: 6.8 / 10
Ambiente impecável, ingredientes de qualidade e uma proposta visual que poucos em Cuiabá igualam. Mas o crème brûlée talhado, a empanada sem gratinado e os pequenos descuidos de execução revelam uma cozinha que ainda não opera na mesma frequência do salão. O Sweeterella sabe seduzir pela entrada — falta convencer pela sobremesa.
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