Review: Ensaio sobre um Petit Gâteau

Todo petit gâteau se decide num segundo, o da colher atravessando a casca. Ou o centro escorre, ou não escorre. O resto é cenografia, e cenografia não salva bolo. Depois de tantos restaurantes, esta revista saiu atrás do melhor petit gâteau que Cuiabá tem a oferecer, entre sorveterias e docerias, em quatro visitas e em datas distintas, porque nenhum pâncreas aguenta produzir insulina nesse ritmo por tantos dias seguidos. O saldo foi menos amargo do que se temia. Houve um vencedor honesto, um segundo lugar de boa caligrafia e dois lembretes de que uma sobremesa pode fracassar tanto por falta quanto por excesso.


Vinte Segundos de Fé

Começamos pelo fundo, que chegou congelado. O petit gâteau da Chiquinho Sorvetes, pedido por delivery, desembarca na porta de casa duro como pedra e com a mesma cerimônia de um presunto comprado no mercado. Vem com modo de preparo, o que já diz bastante sobre uma sobremesa: a embalagem recomenda vinte segundos de micro-ondas. Obedecemos.

O resultado lembrava isopor mastigado com leves toques de chocolate. O centro, única razão de existir do prato, não derreteu. Casca e miolo se fundiram numa coisa só, uma massa uniforme sem contraste de temperatura nem de textura. Petit gâteau que não escorre é só bolinho de chocolate com currículo inflado.

Talvez seja a pior experiência que esta revista já teve com algo doce. A embalagem pedia vinte segundos, e desconfiamos que vinte minutos também não resolveriam. Pagamos R$ 26, já com promoção. O desconto foi a única coisa que derreteu.

Chiquinho Sorvetes: 2.9 / 10

Alegorias e Adereços

Se a Chiquinho errou por falta, a Borelli errou por excesso. Aqui, sim, convém deixar uma caneta de insulina ao lado do guardanapo. O petit gâteau chega numa barquinha de papel amarela, espremido entre duas bolas de sorvete de sabor à escolha, deitado sobre cascão triturado e coberto por uma calda de chocolate que escorre por cima de tudo. É muita coisa no prato. Quase nenhuma delas é bolo.

Foi o menor petit gâteau da rodada. Na barquinha, ele tem o tamanho das bolas de sorvete que deveriam acompanhá-lo, e não fica claro quem acompanha quem. A calda, que na primeira colherada parece generosa, fica mais doce e mais enjoativa a cada minuto, até que terminar o prato deixa de ser prazer e vira compromisso. Cascão por baixo, calda por cima, sorvete dos lados: alegorias empilhadas sobre algo que poderia ser simples e perfeito e que acabou soterrado pela própria decoração.

São R$ 40, oito a mais do que custa o melhor desta lista, pelo menor bolo e pela maior concentração de açúcar por colherada. Não vale a experiência. Vale, no máximo, a foto.

Borelli: 3.9 / 10

Caligrafia de Calda

A Cacau Show entende que a primeira mordida é dos olhos. O prato chega riscado por linhas rebuscadas de chocolate, traçadas com a pompa de quem anuncia: agora, sim, o nosso melhor. Não é o melhor. Também está longe de ser o pior, e o mérito é do bolo, não da caligrafia.

O centro derrete, e a esta altura da rodada isso já era motivo de comemoração. O sabor é o chocolate que a marca já ensinou o cliente a reconhecer, com um amargor leve ao fundo que provavelmente vem do blend da casa. Nada surpreende, nada ofende. É um petit gâteau que entrega exatamente o que a marca promete, e nem um grama a mais.

O melhor do prato, curiosamente, não é o bolo. É o sorvete de baunilha que o acompanha, que cumpre com rara competência a função mais esquecida de um petit gâteau: quebrar o doce. Ao lado de tanto chocolate, é ele quem devolve fôlego ao paladar. A Cacau Show trouxe o show. Quem salvou o prato foi a baunilha.

Cacau Show: 6.8 / 10

O Ritual Cumprido

No térreo do Shopping Estação, a Sésamo Gelato Italiano cobra R$ 32 pelo petit gâteau acompanhado de gelato de baunilha. Comecemos pelo que sobra. O gelato tem sabor reto, enxuto, uma baunilha que comparece e não diz nada, e a mesma baunilha que salvou o prato da Cacau Show aqui só ocupa espaço. O elemento mais dispensável do prato é justamente o que a casa leva no nome.

O bolo é outra conversa. Feito essencialmente de chocolate meio amargo, com cacau em pó em quantidade generosa, tem massa densa e untuosa, daquelas que pesam na colher no bom sentido. E aqui mora o paradoxo da visita: com tanto cacau, seria de esperar algum amargor. O que chega à boca é doce, muito doce, um açúcar que nem o cacau conseguiu domar.

Mas o cozimento seguiu o ritual, e num petit gâteau o ritual é quase tudo. A colher atravessou a casca e a calda escorreu do centro, como manda o figurino. Não foi o único da rodada a escorrer. Foi o único em que o bolo, sozinho, já justificava a visita. Sem alegoria, sem caligrafia, sem modo de preparo na embalagem. Só forno e relógio.

Sésamo: 7.6 / 10

Conclusão

Quatro casas, uma pergunta só, e quatro respostas. A Chiquinho respondeu com um bloco congelado e vinte segundos de esperança. A Borelli escondeu a resposta debaixo de cascão e calda. A Cacau Show escreveu a resposta em letra bonita e deixou o sorvete defendê-la. A Sésamo partiu o bolo, e a calda respondeu sozinha.

Os dois últimos colocados fracassaram por razões opostas, um por falta de cozinha e outro por excesso de enfeite. Os dois primeiros acertaram pelo mesmo motivo: o centro escorreu. Nenhum precisou de calda por cima, de crocante por baixo ou de instrução na caixa.

O melhor petit gâteau de Cuiabá, por ora, mora no térreo de um shopping e custa R$ 32. O pior chega pela porta, congelado, por R$ 26 e com promoção. Seis reais separam o ritual do isopor.


Nota do ensaio: 4.9 / 10

Quatro versões, um único critério que importa: o centro escorre ou não escorre. A Sésamo (7.6) serviu o bolo mais sério da rodada, denso, untuoso e mais doce do que o cacau prometia, ao lado de um gelato que não honrou o nome da casa. A Cacau Show (6.8) desenhou o prato com pompa e foi salva por um sorvete de baunilha. A Borelli (3.9) cobrou R$ 40 pelo menor bolo da lista, soterrado em cascão e calda. A Chiquinho (2.9) entregou congelado, por R$ 26 e com promoção, um bloco de isopor achocolatado que nem o micro-ondas conseguiu salvar. A média dos quatro dá 5.3. O petit gâteau de Cuiabá fica com 4.9, porque ninguém come média: quem pede um na cidade tem uma chance em duas de receber um bloco congelado ou uma barquinha de cascão. No petit gâteau, a única calda que importa é a que sai de dentro.