Review: Backrooms (A24)
Há filmes que terminam onde começam. Backrooms tem a ambição mais modesta de não começar em lugar nenhum e, com disciplina admirável, não chegar a lugar nenhum também. É um filme sobre salas que não levam a parte alguma, e a sua maior coerência é ser, ele próprio, uma sala dessas.
O único destino que alcança com precisão é o sono — e, nesse quesito, reconheço: funciona melhor que qualquer chá de camomila.
O Prólogo Que o Filme Renega
A abertura promete outra coisa. Câmera trêmula, registro found-footage, aquela gramática de horror que Cloverfield calcificou e que aqui reaparece como herança digna — uma filmagem de 1990, um pesquisador que entra na dimensão e não volta. Por uns minutos, Backrooms parece saber o que quer ser. Então desiste. O que vinha tenso e econômico se dissolve em cenas avulsas, soltas, que existem para ocupar minutagem e não para construir nada. O prólogo faz uma promessa que o resto do filme passa renegando.
A Terapia Como Sedativo
O enredo, no papel, tem fôlego: um homem desaparece: Clark, dono de uma loja de móveis e sua terapeuta atravessa a fenda atrás dele. Na tela, isso vira pretexto para diálogo. E mais diálogo. As conversas entre a doutora e o paciente, encaixado de forma rasa, como quem lembrou que precisava de um protagonista, se arrastam com a urgência de uma sala de espera.
Quando o filme finalmente promete tensão, entrega conversa. A ameaça que deveria sustentar o terror tem mais tempo de tela do que eu tive de olhos abertos. É raro um monstro perder em presença para a própria plateia adormecida.
A Fidelidade ao Nada
Sejamos justos, porque crítica sem ressalva é torcida, não análise. Há mérito real na concepção visual. Os corredores fluorescentes, os ambientes líquidos, a estética do espaço vazio e transitório, tudo genuinamente bem construído, revelando o olho de quem nasceu fazendo isso: Parsons dirige aos vinte e poucos anos, vindo direto do YouTube. O problema é que essa fidelidade ao vazio vira álibi para o vazio. E quando o filme tenta enfim acordar, aposta no gore, busca o susto físico e escorrega da pior forma: sangue sem convicção, violência que não assusta porque o filme já tinha desistido de assustar muito antes. Horror exige fôlego; aqui ele chega ofegante e atrasado.
Conclusão
Backrooms é um ensaio sobre a insônia que segue à risca a própria tese: não leva a lugar nenhum, e o faz com fidelidade estética impecável. É bonito de ver e impossível de sentir, um filme que confunde ambiente com história, silêncio com tensão, e tédio com atmosfera. Sai-se da sessão como se sai dos backrooms: sem entender direito por que entrou, e aliviado por encontrar a porta.
Nota: 3.8 / 10
Backrooms troca enredo por ambiente e tensão por diálogo, e quando enfim arrisca o susto, aposta num gore que não convence. A estética liminar é o único acerto genuíno — corredores vazios filmados com talento real —, mas vira desculpa para um filme que se recusa a acontecer. O prólogo found-footage promete um terror que os pouco mais de cem minutos seguintes passam renegando. Fiel à própria premissa, não chega a lugar nenhum. Como cura para insônia, porém, é das mais eficientes que já experimentei.
