Review: Not Normal, de Cara Delevingne

Toda estreia musical de uma modelo chega ao mundo com uma presunção de culpa: a de ser o capricho de quem já tinha tudo e resolveu ter também uma discografia. Not Normal, primeiro álbum de Cara Delevingne, não pede indulgência a essa suspeita. Responde a ela com doze faixas e trinta e sete minutos de uma franqueza que a indústria da celebridade costuma tratar como defeito de fábrica.


O Contrato que Não Vingou

Houve um tempo em que a música de Delevingne quase aconteceu do jeito errado. Ainda menina, ela chegou a assinar brevemente com Simon Fuller, empresário das Spice Girls, que pretendia lançá-la como estrela pop de linha de montagem. Uma das modelos mais famosas dos anos 2010 aconteceu no lugar. A cantora ficou na gaveta.

Not Normal é tudo o que aquele contrato jamais permitiria. Sintetizadores, moduladores de voz e graves que ocupam a sala inteira, costurados por gente que não assina pop de fôrma: BJ Burton, que passou por Bon Iver e Charli xcx, divide a produção de "Crazy, Baby" com a própria Cara, e Fiona Apple, amiga e mentora musical, aparece na composição de "Need It". A linha de montagem queria uma voz bonita. Recebeu, anos depois, uma voz que desconfia de si mesma.

A Voz Atrás do Filtro

Existe um paradoxo aparente num disco vendido como cru que passa a voz da própria autora por moduladores. Só aparente. O álbum trata de dependência e dissociação, e alterna um art-pop delicado com rajadas ásperas de distorção eletrônica. O filtro, aqui, não é maquiagem. É o som de alguém que não está inteiramente dentro de si. A voz processada é a tese, não o disfarce.

É por isso que "Out of my Head" funciona como centro de gravidade do disco. Lançada em junho ao lado de "I Forgot", as duas foram concebidas como faixas interligadas, e ouvidas em sequência soam como dois ângulos da mesma vertigem. O título já diz tudo o que a produção confirma: estar fora de si, com graves no lugar do chão.

"Crazy, Baby" leva a mesma loucura para o território do desejo. É o single mais quebradiço do lote, de textura glitchada, e o mais honesto sobre o que o disco inteiro sabe: vontade e descontrole costumam dividir o mesmo endereço. A loucura, pelo menos, tem ritmo.

O Que a Biografia Não Canta

Seria desonesto fingir que o disco chega sem contexto. Depois de deixar a moda em 2015, Delevingne atravessou anos de dependência de álcool e drogas, e está sóbria desde 2022. Ela falou disso publicamente, e o álbum fala também.

O risco de um disco assim é deixar a biografia fazer o trabalho que caberia à canção. Quem conhece a história preenche sozinho as lacunas da letra, e a confissão ganha um peso que nem sempre foi construído na faixa. Not Normal é melhor quando dispensa o ouvinte informado, quando a distorção carrega o desconforto sem precisar da manchete para explicá-lo. Nos momentos em que se apoia nela, soa menos como canção e mais como depoimento com arranjo.

Conclusão

Toda estreia de celebridade é julgada pela mesma pergunta: o disco existiria sem o nome? Not Normal responde melhor que a maioria. Nos seus melhores momentos, a fama de Delevingne vira ruído de fundo, e o que sobra são sintetizadores, graves e uma artista com algo a dizer. O título promete anormalidade e cumpre. Anormal, mesmo, é um disco de celebridade que funciona melhor quanto menos se sabe sobre a celebridade.


Nota: 7.6 / 10

Estreia de quem quase virou pop de fôrma ainda menina, Not Normal troca a vaidade esperada por sintetizadores, moduladores de voz e graves a serviço de temas difíceis: dependência, dissociação, desejo sem freio. "Out of my Head" e "Crazy, Baby" mostram o disco no seu estado mais convincente, quando a distorção carrega o desconforto sozinha. Quando a confissão se escora na biografia, perde força. Ainda assim, raridade: um disco de celebridade que dispensa a celebridade.